Gilberto Gil em frente ao mural feito em sua homenagem, na Cinelandia. 22 ago 2012

Marco Antonio Teobaldo, Gil e o cônsul-geral italiano, Mario Panaro
Parecia uma gincana. Pelo celular falava com Flora Gil, explicando onde eu estava na Avenida Rio Branco, à espera dela e do marido, Gilberto, para levá-los até a rua de serviço da Praça Floriano, a Cinelândia, no Centro do Rio. Ali existe um respirador da estação do metrô, que serve de suporte para um imenso painel com o retrato de Gilberto Gil, feito por uma dupla de milaneses, os Orticanoodles, dentro de uma exposição que esteve em cartaz na Caixa Cultural da Avenida Almirante Barroso.
Entrei no carro dos Gil, dirigido pelo motorista Léo, e em minutos estávamos na Alcindo Guanabara, uma ruazinha que liga a Senador Dantas à Cinelândia. É uma rua restrita ao estacionamento de vereadores. O controlador quando viu Gil no banco do carona não pensou duas vezes. Tirou os cones do caminho com o maior respeito. Desembarcamos junto ao bar Amarelinho e caminhamos até o painel com o retrato do cantor. No percurso, era um tal de gritarem “Gil, Gil”. O artista, não há quem duvide, é uma simpatia ímpar.
Em dois minutos, juntou gente para ver, cumprimentar e fotografar o nosso querido Gil, que atendeu a um pedido da coluna e foi ontem conhecer o painel que tem seu retrato em grafite. Acompanhado da mulher, ele encontrou com o cônsul-geral da Itália no Rio, Mario Panaro, e o curador da exposição “Mural Itália-Brasil”, Marco Antonio Teobaldo.
– O grafite tem o papel de recuperar essas áreas abandonadas e sujas dentro de todas as grandes cidades — disse Gil, acreditando na promessa do Metrô, de que não vai remover a pintura, como chegaram a cogitar.
O cantor, que completou 70 anos em junho, recebeu mais felicitações, ouviu saudações políticas (“fala, ministro!”), cumprimentou fãs e até cabos eleitorais fantasiados de palhaços. Gil e Flora costumam frequentar a Cinelândia, seja para ir ao Theatro Municipal, onde ele cantou outro dia, seja para uma sessão no Odeon, o último cinema que sobrou no local. Os outros viraram igreja ou estão abandonados. Em 2013, Gil fará 40 anos de Rio, desde que aqui se radicou depois de voltar do exílio. É um grande baiano com um imenso coração carioca.
Flora chegou no meu ouvido e lembrou: “Jorge, temos que pegar um voo”. E ia juntando mais gente querendo fotografar, filmar, um “autógrafo pra minha mãe”, uma “lembrança pro meu pai”. Gil não negava um sorriso que fosse. Abraçou paraenses, gaúchas, baianos, pernambucanos. Todo mundo que chegava dizia seu local de origem ou que havia estado com Gil em algum lugar uma vez na vida. Eu mesmo não resisti e lembrei de quando sentei ao lado dele para assistir à pré-estreia de “Cinema falado”, de Caetano, no Hotel Nacional, em algum dia de 1980. Infelizmente tive que tirá-lo dos braços do povo e levá-lo de volta ao carro, para seguir ao aeroporto. As pessoas se dirigiam a mim: “Só mais uma foto, moço”. E eu, com maior cara lavada: “Não vai dar, não vai dar”. Foi quando me dei conta de que virei guarda-costas de Gilberto Gil por um dia.
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